A competitividade brasileira está cada vez mais comprometida

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A competitividade brasileira está cada vez mais comprometida

Para o empresário Carlos Rodolfo Schneider, redução de impostos e clareza na política industrial são medidas urgentes

Desde 2010, o Brasil perdeu 16 posições no Índice de Competitividade Mundial – em 2013, ficou no 54º, de um total de 60 países analisados. Para o empresário Carlos Rodolfo Schneider, um dos fundadores e coordenador do Movimento Brasil Eficiente (MBE), isso é resultado de um cenário externo no qual prevalecem alta carga tributária e desequilíbrio dos salários em relação à produtividade da mão de obra. “As empresas brasileiras investem menos do que poderiam porque a carga tributária elevada reduz a disponibilidade de recursos”, diz. “Também porque o Custo Brasil diminui ou inviabiliza o retorno de muitos tipos de investimentos e a falta de clareza de determinadas regras e de uma política industrial aumenta o risco de investimentos de longo prazo”.

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Administrador com mestrado na área (ambos na FGV), presidente do grupo H. Carlos Schneider – que inclui a Ciser Parafusos e Porcas, Ciser Automotive, Hacasa Empreendimentos Imobiliários, Intercargo Soluções Logísticas, Agropecuária Parati, RBE e FCF -, Schneider já foi presidente da Associação Comercial e Industrial de Joinville (Acij) e do Conselho de Administração da Celesc. Atualmente é membro do Conselho Superior de Economia da Fiesp e do Fórum Estratégico da Indústria Catarinense, Fiesc. Nesta entrevista exclusiva à Revista O Empresário, ele fala dos ajustes necessários para a retomada do crescimento e dos índices de competitividade das empresas nacionais.

Economistas e empresários apontam a necessidade de ajustes na economia para o Brasil voltar a crescer. Neste sentido, quais são as ações prioritárias?

Schneider – O crescimento de um país é influenciado pela disponibilidade dos fatores de produção capital e trabalho. No que se refere ao capital, já tivemos experiências negativas no passado, com a excessiva dependência de empréstimos externos, pela falta de poupança interna. Falando de trabalho, por outro lado, o Brasil alavancou parte do seu crescimento recente com a absorção de consideráveis contingentes de mão de obra que ainda estavam disponíveis. Essa ferramenta se esgotou quando atingimos a situação de pleno emprego, que desconsidera aqueles que não buscam trabalho por estarem acomodados nos programas de salário-desemprego e bolsa família. Diante desse quadro, a ampliação dos fatores de produção dependem fundamentalmente do crescimento da produtividade, que por sua vez depende do aumento dos investimentos e da desaceleração da transferência de recursos do setor privado, mais eficiente, para o público, menos eficiente. Importante assinalar que a capacidade de produção da indústria brasileira foi amplamente afetada na última década. Não estamos bem na fotografia e as consequências já são visíveis a quase todos. O que falta é vontade política e senso de urgência para as correções de rota.

Segundo levantamento divulgado em outubro pelo International Institute for Management Development (IMD) e Fundação Dom Cabral, o Brasil caiu três posições no Índice de Competitividade Mundial em 2013, ocupando a 54ª posição no ranking geral (de um total de 60 países). Na prática, o que isso significa?

S – Significa que a competitividade brasileira está mais e mais comprometida. Desde 2010 já perdemos dezesseis posições nesse ranking. E competitividade é condição para crescimento da economia e algo que depende basicamente da redução do Custo Brasil que, por sua vez, requer aumento de investimentos, como já dissemos, e reequilíbrio na equação salários X produtividade da mão de obra. As empresas brasileiras investem menos do que poderiam porque a carga tributária elevada reduz a disponibilidade de recursos. Também porque o Custo Brasil reduz ou inviabiliza o retorno de muitos tipos de investimentos e a falta de clareza de determinadas regras e de uma política industrial aumenta o risco de investimentos de longo prazo.

É possível reverter essa situação a médio prazo? O que é preciso fazer de forma mais urgente em relação à eficiência no setor privado?

S – Novamente depende de se equacionar uma série de fatores como a redução efetiva do Custo Brasil e a racionalização da intrincada estrutura tributária do país, fatores que inibem drasticamente os investimentos e, por consequência, a competitividade do setor privado. Receitas e despesas da União devem ser geridas com mais governança, transparência e eficiência – e, para isso, a regulamentação do artigo 67 da Lei de Responsabilidade Fiscal, que propõe a criação do Conselho de Gestão Fiscal, é um avanço imprescindível. O PLS 141/2014 está em tramitação e o MBE está empenhado na sua aprovação.

Todos os candidatos aos cargos executivos, na esfera estadual ou federal, sempre pregam ‘choques de gestão’. Como melhorar a eficiência na área pública?

S – A sociedade e o próprio governo já entenderam que, para aliviar o peso da máquina pública sobre o cidadão e a economia, é preciso reduzir os gastos públicos correntes, para preservar os imprescindíveis investimentos, tanto privados quanto do governo. Um discurso que pode ser recorrente, mas que, infelizmente, ainda não mobiliza o país. A criação do Conselho de Gestão Fiscal já mencionado é um importante instrumento para disciplinar as finanças públicas e permitir a redução da carga tributária. Portais de transparência e observatórios sociais são instrumentos interessantes de apoio à gestão eficiente. Acima de tudo é necessário que haja vontade política do governante para levantar essa bandeira. Alguns poucos governadores já têm bons exemplos para mostrar.

Como iniciativas como o MBE colaboram para as mudanças necessárias? Quais são as principais bandeiras hoje do Movimento?

S – Com adesões de governos estaduais, entidades, parlamentares e lideranças das mais variadas esferas, o MBE propõe a busca da eficiência pública e a simplificação da caótica estrutura tributária do país. Trata-se, é bom que se diga, de um movimento suprapartidário, apoiado pela sociedade, para restaurar a dignidade dos contribuintes e ajudar a criar no Brasil um ambiente favorável ao trabalho, ao empreendedorismo e ao desenvolvimento. O Movimento também defende a criação de uma Secretaria da Despesa Pública enxuta, como instrumento de apoio ao CGF, com a finalidade de gerir o gasto com a mesma eficácia com que a Secretaria da Receita Federal administra a arrecadação dos tributos. A sociedade estaria, assim, ajudando o governo a investir mais, porque investiria melhor. Entendemos, porém, que essas mudanças somente acontecerão se a sociedade civil organizada conseguir mobilizar-se unida, para em seguida, com o apoio da população que estará receptiva, mostrar às autoridades que o poder público existe para servir o público e não para dele servir-se.

Entrevista publicada originalmente na revista O Empresário.

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